Se eu pudesse...



Se eu pudesse....



Ah.. se eu pudesse…
Abrir-me em dois e ser um só
dividir o mundo a meio e escolher um
 poder dizer não e nunca mais.

Ah, se eu pudesse…
Voar mais longe ainda e  não voltar
não explicar  porquê ou porque não
seguir em frente  e não olhar p´ra trás.

Se ao menos  eu  pudesse…chorar,  
sem  ninguém me perguntar
porque choro as  lágrimas que verto
por te saber   tão  longe e não  te ter,

não abraçava contra o  peito o meu sofrer,
 não ficava presa  neste estar distante …
 ia , por onde não sei, até em mim te ter.

---

Seja...




"Seja qual fôr o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim"
S. Freud





Não me sonhem,
nem me cantem
o  que não sou.
Porque o que sou não mostro,
e o que mostro não sou eu.


Sou  muito menos  do que quero
E muito mais  do que não quero.
O que quero, eu sei
O que não quero, também.
Só não sei se  o que  quero ,digo querer
ou se não digo o que não quero


E desta certeza incerta
que é a incerteza  de tudo,
fico-me pela certa
na dúvida que me cerca
de ser só  eu quem se  confessa.


Mas vou, porque só posso ir.
Se me dessem a escolher,
ficava aqui,
onde sei  que o tempo pára
num tempo que me não mata.


 Se quisesse ir mais alem,
onde não sei mas imagino,
só sei que  me  prendiam
de tão  loucas e verdadeiras
tantas  ideias   que tenho.


E para ser mais concisa
no que tenho para dizer,
vou inventando versos
poemas, estrofes e tanta prosa
com que disfarço o que sinto.


E  agora ,  me desculpem,....
não digo mais...!!!
Calei-me !
Porque hoje falei demais.
Ou terá sido o contrário???
Seja…!



Lapis na Areia




“Lápis na areia” 


Um a um ,foram caindo
das mãos do pintor,
...os lápis.

Cada cor um sentimento:
 Amor,  Ciúme,  Amizade
 Alegria,  Inveja,  Vaidade
 Sucesso,  Cólera, Orgulho
e por fim... toda  a Loucura …

Na areia jaziam
cansados das tarefas,
...os lápis

Num infinito espanto
de criança curiosa,
a voz sumida….
- Que pintas?

O olhar parado no nada à sua frente,
lágrimas de encanto molhando o sorriso,
de pé, num gesto largo e abrangente,
respondeu:

- A cor do vento!

...EM BRANCO....



...EM BRANCO



Não sei explicar

  a flor branca que  deixaste  

no parapeito da noite  

 a rasgar  o  sentimento que revejo.

O ficar, é silencio escuro...

 Partiste


      A noite debruçou-se

na pegada branca  que ficou
na sombra do caminho
da súbita partida

 escurecendo a luz  da madrugada...
Fiquei.



 Pendurei-me no olhar

  luminoso  de um sorriso

 seguindo-te e os passos

nas pétalas brancas

 sem destino  caídas  no caminho...

Permaneci.


Na urgência de sentir

 as mãos  tocam-se,

arde  a vela branca

na  flor desfolhada

 que  os dedos da  noite orvalharam...

Adormeci.





Tu...





Caminhavas de costas correndo a passos largos
do imperceptível olhar que em ti pousava.
Olhando-te em surdina ,não escutavas nem sentias
que era por ti que chamava , te suplicava o voltar.

Tão distante , no tão absorto egoísmo de ti mesmo
que na volta do teu corpo, tão ausente do momento
tão inconsciente do meu sentir, nem deste conta
que era ainda amor o que sentia.

Olhaste-me olhos nos olhos sem sentimento
falaste sem apego a dois metros de distancia
e nem te deste conta que era um mar de esperança

o que alimentava este ver-te longe sem estar perto
este estar perdida descontente de noites sem luar
esperando a estrela de um único momento teu iluminado.






MOMENTOS...









Deixo-me embalar na fragrância dos sonhos
  e visto-me, a sorrir,  de  silêncios…

Momentos  há de peito fechado.

O escrever custa…..!!

Dispo-me de palavras ,
 de mim e de ti
Só o silencio !.

Escuto o  momento sussurrado:
vou-te buscar,
vem comigo.!
Vou na brisa do vento...
Vou a qualquer lugar!


Com Olhos Verdes






Onde o sol nasce quando aqui se deita,
caminho com a infinita bebedeira
na linha do horizonte deitada,
na vertical do verbo que a levanta.
Beijo a terra que os homens sangram
com ar de sonhadora de moinhos .

Há dias de vento e estrelas frias,
límpidos, onde o olhar são pontes
instáveis , movediças , levantadas,
fechadas, ou abertas a um infinito
onde não há memória
na memória dos meus olhos tristes..

Há dias de silencio branco e papel
onde a ausência do gesto e da escrita
são a distancia de mim, em mim perdida.
Encontro na pegada dos passos percorridos
A sombra do sorriso que deixei ficar
a iluminar o rosto que desenhei a tinta

E há o verde nas montanhas
E as madrugadas de sol poente.
E há uma gota de água sobre o papel,
a perspicácia dos sentidos que prolonga
a melodia que sustento, a lucidez clara,
de querer olhar com olhos verdes,
a brecha escura, que o tempo adivinha.



CHOVE DESDE A MADRUGADA ...


 Chove desde a  madrugada
 um tempo angustiado.
 No peito,
 o peso das palavras abandonadas
 escorrem salgadas    
.
Molho de chuva  as gotas deste pensar
Lume acesso que queima
a  bruma do olhar ausente,
 que de  longe  vigia e espreita
a  espera que  amadurece
a razão sem razão dos sentidos.

 Alma  que  anda sem andar,
Poisa-se no compasso da pausa,
 trilha  incerta os caminhos inseguros,
 e estremece de tão frágil..

Que em braços  de paixão se  levante,
 desta  terra molhada, onde se deita
Porque de incertezas se  faz
Este  caminhar na sombra descoberta.



Saudades do frio




  Saudades das noites de frio 
 das noites geladas frente a frente, 
daquelas em que sentada à lareira de copo na mão
tagarelava escrevendo sorrisos , beijando letras
e mão na mão contávamos o passar dos segundos
escrevendo poemas de luz à desgarrada...
E eu, deixava-me levar enlaçada no teu abraço
sorrindo ás estrelas que rompiam por entre temporais
não sei se de chuva  ou  só  de vento...
ou se eram lágrimas do meu chorar.
E agora, que  o tempo aqueceu
e as estrelas são o nosso tecto comum,
haverá  noites ainda em que olharemos ambos
o mesmo céu a mesma lua de sorrisos
e saibamos cantar ainda o que os dias nos levaram?

Nada se perdeu!
Tudo esta presente em mim
gravado em sentimentos nascidos no frio
amadurecidos no tempo de agora
uma espera , sem retorno de um gesto que seja
que me ilumine o sorriso.



Lá, onde o sol brilha

Haviam gaivotas em terra
e o mar revolto  cor de lama 
quebrava-se embrutecido  contra as pedras
beijando-me os pés lívidos da alma.
Chovia no vento,
 chovia na areia da mente
e por entre gotas de um pensar ausente
despi-me das vestes molhadas de penas.
Mão  e corpo nus
agarrei  o indeciso  bater de asas
da gaivota desesperada em terra
 voamos   ambas , eu e ela
bebendo o infinito mar e céu azul
lá,  onde o nada é longe
e só o sol brilha.

Olho-te de longe

Porque calei em mim todas as palavras
no meu peito enraivecido de silêncios.
Porque era lindo o meu esperar
dum balbuciar simples dos teu lábios
dum sentimento  por ti já tão esquecido.

E no teu estar aberto ao mundo
de costas voltadas para a minha angústia sofrida,
davas as mãos ao teus amores vividos
e eu via-te de longe esmorecida.

Pudera eu  apagar da memória
este estar desolado do meu chorar  de alma,
este querer-te não querendo desejando-te
quando o teu olhar sobre  todos os olhares
ia esquecendo a cor triste, chorada  dos meus olhos.

Esperei-te






Espreitei-te em cada canto do jardim,
esperei-te em cada esquina florida.

 Nas sombras ,  o vazio ambulante.
 Passos  que ecoavam  tão longe,
o rachar da lenha tão distante                                                       
e o silencio a marcar as horas
a compasso do estiar do tempo.

Como te esperei, amor...
e nos teus olhos rasgados , um deserto
 onde   me calaste o olhar e o canto.



Palavras....



















Palavras não digo
que me sabe a amargo esta vergonha

Crescem-me nos lábios                                                              
como gretas sangrantes
 palavras que as lágrimas não diluem...

e... mordo como louca
este silencio escuro.



.

Quisera ....






















Quisera  ter-te aqui
entre um pestanejar e outro...
Breve o instante
que de tão curto
se fez enorme no meu pranto ..


.

Desassossego




Há sulcos na terra,
gretas abertas,
fundos escuros
sangrentos de raiva




Agua fosse
o meu olhar sedento.

Primavera quase verão....

Desassossego
este mar de silencio
espuma branca
salgada no meu peito.



Abraço adiado....















Foi  nesse café beira esquina
adoçando o café esquecido sobre a mesa
o olhar  perdido  entre as gentes...
 movimento  ausente,  sonhador
das mãos que mexem e remexam
com pau de canela entre os dedos
o sonho que o olhar desprendeu
e cativo ficou no meu

E foi entre fumaças  brancas
nesse nevoeiro denso de ruídos 
que despertei  para a madrugada
mergulhado no teu olhar..
quase um sorriso ...embrulhado
em papel de seda estampado
de imperceptível solidão..
e o elevei  ao peitoril da minha saudade.



Feminino...





Há numa flor
pétalas de seda abertas ao mundo
pétalas recolhidas de vergonha
outras resguardando de pudor
o seu cerne mais sensível

Há numa flor
encanto supremo no desabrochar
magia mistério no desfolhar
respeito quase divino no declinar.
Mulher inteira em poema esculpida!


Vertices de um sorriso




 Também eu
olhei o sol de frente, quase ceguei
também eu
sorri chorando no seu sorriso
fechando as pálpebras de prazer

Ameaçou sorrir
e liberto das grilhetas de chumbo
dançou descontraído
na serenidade do ar que fazia
abraçando a diáfana cor do dia

Toldou-se depois de lágrimas
Toldei-me como o tempo

 Ah!...,este tempo triste
esta anarquia sem começo de ordem

Também eu
chutei a felicidade e me enganei...
Não era chutando
não era agarrando
amar bastava
para a reter em mim

E ainda
os acessórios 
a roupagem , a máscara
encobrindo o eu,...o nós
 e sempre nós
para além do além
sós em nós

E ainda 
a angústia desse teu olhar franzido
por detrás do oceano que o esconde

Fosse eu feiticeira
descobrindo segredos....

Também eu ...
sorria.

 

Talvez




Porque hoje chorei
 e me comovi
porque talvez

talvez Neruda me tenha emprestado do poema
 a estrofe da vida que não vivi
o verso da noite que não passou de um sonho 
a carta de amor aberta tantos anos passados

talvez..porque
o dia sorrio estranho no meu sorriso
  deixando partir um pouco de mim
no raio de luz que passou perto ...
não me atravessou nem tocou
me contornou e partiu.

talvez porque
talvez
eu fosse invisível de matéria
astro
  éter   
e  nada.


Porque é Natal

http://www.youtube.com/watch?v=2lhQ_hBT7lA



Uma das melhores vozes de todos os tempos...acompanhando a descida do Natal sobre o Mundo....e que seja Lindo...

Queria que fosse lindo... !!!!

Um acordar





Um acordar.....
Primeiro a luz, ....o despertar de mansinho do sono. E um silencio profundo num olhar sonâmbulo   num corpo sem peso, nu de si mesmo , livre , a flutuar suspenso no vazio da memória. ….qual  folha de papel  em branco, amarrotado,  sem letras....
Depois o olhar na penumbra da claridade , o  olhar sem  fixar, vagueando  no espaço indefinido de contornos. O prazer da temperatura no grau exacto da textura da pele abandonada sobre as fibras relaxadas dos músculos, e um aroma morno a nós...
Encerro  as  pálpebras sobre as últimas letras da véspera ....
.Agora, aparecendo desfocadas a desenharem-se no desdobrar da folha enxovalhada.....






LÁ DE ONDE VENHO...



Lá de onde venho....chove! 

 A noite durante o dia espalha-se por toda a parte
O sentimento faz-me calar

Queria apenas renascer, recuperar o sossego, lutar contra a lágrima afundada na voz

Queria cumprir um sonho antigo,.... ir para longe de todos os lugares
Anichar-me na terra amornada de sol. 





“A viagem mais comprida é aquela que se faz para o interior de si mesmo.” (Hammarskjöld)





Demorei-me aqui, sentada às portas da memória, da qual por vezes sinto a ânsia de apagar alguns arquivos,... voltar ao estado fetal , à pagina em branco, ao início, ao fundo que está mais longe ainda que o fim ... .



Na ausência completa de ferramentas psíquicas que me permitam o acesso à execução desse acto, como criança que apaga o traço tremido da linha recta , abraço a recordação , respiro-lhe a vontade da permanência , sinto-lhe o desejo de abrigo cativo, respeito-lhe a antiguidade do lugar... 


Sobreponho às antigas imagens , as novas, como se fosse o retocar de uma pintura, o redesenhar da melodia que o tempo interrompeu, e o novo vulto reflectido ganha a dimensão de uma estrela acabada de eclodir no universo ,suspensa do cordão umbilical que o liga à vida, brilhando trémula com a luz imemorial da certeza, que a permanente inconstância é , e será sempre constante.


Um pendular recriado entre passado e presente, tecido nas margens cósmicas do movimento perpétuo da memória que não pode ser apagada , mas apenas revivida nas páginas por desenhar que se emprestam ao sonho, fazendo-me lembrar que os erros, desilusões, e perdas , são a terra firme dos passos colocados no futuro, com a recriação magnífica que só o passado ensina.



Ao sabor do tempo.....


Imagens   e gestos  valem mais que mil palavras......
Mais do que letras arrumadas em  silabas, mais do que palavras desenhando poemas inventados na prosa da existência , são os olhos dos sentidos  que arquitectam o meu pensar.
Verdades, (as minhas) confrontando a mentira da vida??
Só no silêncio que fiz meu,  me encontro e entendo.





Por entre as sombras, um pouco da luz, onde tudo existe, incluindo um pedaço de mim.....na sombra....

...nos contrastes




     ....numa franja de sol ondulando na mudança das cores quentes outonais ....anunciando o frio que não tarda.

Neste lugar que fiz meu, descanso o olhar na memória que me há-de trazer a lembrança , do que em breve  deixarei de ver.


Chove...





 Por detrás da chuva  caindo "leve, levemente" escorrem sem horas, as cores deste outono mansamente molhado...
 e as horas , o tempo incessante....devorando em cada minuto uma batida de vida...




....um povoado de ausências ...

convertendo  em LUZ o  meu deserto.





Esta estranha forma de viver...










«....primeiros somos inocentes, depois vamo-nos degradando, vamos aprendendo, e depois perdemos a inocência completamente. Fazemos um esforço notável para voltarmos a ser inocentes.» 




Quase um gesto de despedida...












 




 Há madrugadas assim....
 ...  no silencio que tudo faz ....



















...e  um anoitecer  imóvel
...onde  só o canto do recolher dos pássaros que por aqui poisam se escuta.



Um dia,  a recordação será  o cansaço do que  não verei,    do que o olhar sonhou, e  do que  as mãos esculpiram sob as asas de um ceu de estrelas e luas.  A regar  este lugar  confidente de silêncios ficará a voz do pranto ,  uma vida inteira.que lhe deu alma.



...e de novo o cansaço...




Estou assim....
Cansada!


Vesti-me de sois , porque só um não chegava.
calcorreei estradas, entroncamentos, desvios, atalhos ruelas
e mais ruas  de um imaginário tão denso como comprimido
que para o encontrar teria que ousar invadir um espaço 
tecido por mãos artísticas, escrito com a linguagem de poetas
avivado de cor, de todas as cores , pinceladas deixadas ao acaso das emoções momentâneas
que coloriram os  dias já passados, 
tão longínquos na memória,
que já não sei se existiram ou não,
que me encantaram, desassossegaram....
Mas não ousei!


Estanquei à porta!


Pelo caminho do tempo, que mais não foi esse, 
perdi-me nos desencontros e nas ausências,
que encontros , apenas se dão com quem sentimos o encontro
e desencontros é o que mais se encontra 
na linguagem onde a palavra é mestra mas esquecida.
Esqueci? Esqueceram?
O vinculo, o fio condutor da motivação
ficou laxo, frouxo demais 
na palavra de quem não quer expressar-se mas exige estímulo para continuar vivo,
ou  dele precisa para viver.
...E ficou o silêncio a  invadir esse espaço...


Dei-me conta que não o habito.
 Esse não é o meu espaço,... eu que sou de silêncios !
Habito o sentir da imaginação como  se estrangeira fosse
ou nem mesmo existisse.
E será que existo??
 Não serei  apenas o fruto de uma imaginação fértil
criado à da imagem do sonho...?...da ilusão?



Nunca possuímos nada nem ninguém.
Temo-nos a nós próprios...
 na imagem com que pintamos a liberdade
e libertamos-nos uns dos outros com real irresponsabilidade!
Porque é tão cómodo, e  tão fácil exigir!


Cansada, sim, ....de silêncios!


De tão cansada parto feita cinzas...
porque cinzenta estou e não sou.
Sou azul do céu em forma de asas que procura no infinito
ser mais que azul, e mais que todos os sois  de que me vesti...
para te dizer:


-Até um dia!







Um pouco de mim....







Pregada ao céu a cor da noite.
Abraço  a luz aveludada da lua
pedindo licença para dormir, descansar horas a fio sem sonhar.
A noite é de lua pálida
O desespero o limite.
Ou a loucura de deixar entrar a noite,
Ou a resistência de  a fechar ao sonho.




Lembranças


(...)


As coisas há muito foram vividas
Há no ar espaços extintos
A forma gravada em vazio
Das vozes e dos gestos que outrora aqui estavam.

E as minhas mãos não podem prender nada.


(Sophia de Mello Breyner)